Belo Horizonte sempre foi uma cidade esquisita para mim. Uma dualidade estranha. Uma cidade que estou a tanto tempo aqui, que já é parte essencial da minha pessoa, mas que eu nunca me sinto perfeitamente parte dela.
Mas tem dias em que alguma coisa me puxa pra uma BH que já acabou. Uma BH de férias, de manhã fria de julho, de pegar o carro cedo pra ir na Blockbuster escolher jogo antes do almoço de domingo na minha avó. Às vezes essa sensação me pega tão inesperadamente que me pega no contrapé.
Por isso quando eu passo na Praça da Bandeira e vejo que a Blockbuster virou uma chatíssima Hermes Pardini, ou que o apartamento do meu avô, que sonhei com ele hoje, também não tem mais a alma mais lá dentro.
Tomando um sorvete na São Domingos, e voltando eu vejo o restaurante que meus avós gostava de ir sendo demolido. Senti uma amarga lágrima escorrendo na bochecha. Era mais um sinal da infinita caminhada rumo ao progresso.
A BH que eu conhecia lentamente dando lugar à chatíssimos prédios espelhados, genéricos, idênticos aos que qualquer bairro de qualquer país parece ter decidido construir ao mesmo tempo.
E é estranho, porque Belo Horizonte continua aqui. Mas acho que a minha BH não existe mais.
A escola onde estudei, trocou de dono e reformou para uma escola que eu não gostava. O Bar Lua Nova no Malleta fecharam sem cerimônia. A casa dos meus avós segue de pé, mas já não é mais deles. Tantos lugares lentamente, ou nem tão lentamente assim só existem na minha memória.
Eu caminho pelas mesmas ruas, mas com a sensação de que estou visitando uma lembrança que empalharam e deixaram apenas silhuetas. Similares o suficientes para me ativar a memória, mas distantes o suficiente para a diferença ativar meu coração.
A geografia continua inalterada: os mesmos quarteirões, as mesmas esquinas. Eventualmente eu me pego olhando em um mirante, vendo as luzes tremendo ao fundo, e meu coração ainda se enche de surpresa. Chegar no Belvedere com as luzes todas e prédios acesos com trabalhadores sobrecarregados.
Acho que hoje é um dia melancólico pra mim. Acordei lembrando da minha antiga casa. Ouvindo uma playlist, lembrei de uma época tão boa que não existe mais. Lá em casa, todo mundo no violão, música, e sons. A casa cheia de gente e vida.
O foda é que quando eu pensei nesse texto, eu ia falar sobre como BH mudou, mas quem mudou fui eu, e tal, fazendo um paralelo espetacular.
Mas aí lembrei que Heráclito já escreveu muito melhor que qualquer versão que eu pudesse SONHAR em escrever.
“Nenhum homem entra no mesmo rio duas vezes, pois não é o mesmo rio e ele não é o mesmo homem.”
ódio.
Alguém escrever algo tão especificamente que você está sentindo de forma tão literal, tão limpa e bonita.
E mais que 2.000 anos atrás.
Enfim.
BH mudou
Mas talvez bem menos do que eu insisto em acreditar.
O que mudou foi o Rafael. A cidade cresceu, e consolidou como capital, só que um bocado mais quente, com trânsito demais e personalidade de menos. Mas a melancolia que sinto ao andar nela não é pela cidade; é pela versão de mim que foi demolido em cada um dos prédios, que se mudou em todos os encontros e despedidas, e que viveu nas entrelinhas.
Admito, as vezes eu sinto falta da minha BH, mas a verdade incômoda é que ela só existia porque eu era outro.
E talvez o luto não seja pelo rio que mudou.
Quem mudou foi o homem.

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