RAFAEL

Meu nome é Rafael, mas pode me chamar de Rafinha. Aqui eu escrevo o que parece verdade na hora. Se amanhã eu discordar de mim mesmo, parabéns pra mim: evoluí ou pirei mais um pouco.

SÓ MAIS UM PONTO AZUL – CRUZEIRO, IDENTIDADE E SOFT POWER

PARTE 0 – O EU E O CLUBE — IDENTIDADE, ORIGEM, ASSIMETRIA

Terminar de escrever esse texto depois de perder pro Corinthians em pleno Mineirão lotado é uma daquelas decisões inexplicáveis que eu tomei. Essa escrita nasceu antes do jogo, senti que era importante explorar esse sentimento.

Tudo inicia da minha escolha em ser torcedor, um sentimento nascido do seio da casa, do momento que vim ao mundo e fui vestido com a camisa “Obrigado papai já nasci Cruzeiro“.

Não existe um mundo onde o Cruzeiro não seja parte do que eu sou. Mas definitivamente existe um mundo onde o Cruzeiro existe sem meu suporte. Há assimetria.

Sou pequeno diante do gigante.

Mas dentro de nós, entender como algo tão importante para si pode não significar nada para o outro é inquietante.

Não serei sequer nota de rodapé da história. Um número.

Mas esse relacionamento não foi sempre da mesma forma. Quando somos crianças, o clube é um paraíso na terra, os seus jogadores, heróis hercúleos. Os rivais, mal administrados e com horríveis jogadores. Ao crescer, mudamos o que é torcer. A criança torce por magia, o adulto torce por hábito, resiliência, paixão e burrice.

Volta a assimetria. O que sobra de humano quando somos mais uma voz no coro ao cantar? Sou apenas sócio na meta de pessoas no Mineirão?

A gente aprende que existe um Cruzeiro de fantasia e existe a empresa. Descobrimos que o clube idealizado talvez nunca tenha existido. Torcer não é lente para entender o mundo. É a própria assimetria: é o mundo te atravessando por um prisma cheio de história, cultura, esporte e política.

Sim, muita política.

PARTE 01 – O CRUZEIRO COMO HISTÓRIA E APAGAMENTO

O Cruzeiro Esporte Clube é um time centenário e de história rica, complexa e intrinsecamente política. Sua trajetória passa pelo Palestra Itália, atravessada por eventos como a Segunda Guerra Mundial, a xenofobia, os decretos do Governo Vargas e, mais tarde, figuras como JK e os Perrellas, que ajudam a tecer a identidade mineira do clube.

Porém, o que disso está presente na realidade do clube? Nada. Pensamos na Libertadores do ano que vem, nos títulos e ídolos. Falamos do dono do clube. É um afastamento natural, mas que existe.

Nesse vácuo, a política se instala na pura popularidade do clube: ser do Cruzeiro vira broche, bonito no currículo. A tradição vira mito, e o pertencimento se transforma em hábito: a festa anual italiana.

E a gente? A gente nasce Cruzeiro e ponto.

Nós, como torcedores e co-participantes, somos apenas os costureiros que criam essa tapeçaria histórico-cultural, dando-lhe sentido a cada nova geração.

O resto é detalhe na manga da camisa.

PARTE 02 – FUTEBOL É POLÍTICA

O ponto inevitável é que o popular caminha de mãos dadas com a política, mesmo quando a gente jura que não. Sonhamos que o gramado é sagrado, e que bola na trave não altera o placar.

Mas não vai ser.

É por isso que questionamos o time do presidente, usamos o boné de campanha ou discutimos se o Cruzeiro é ou não o “time da massa”. Essa micro-política do pertencimento é a mesma força que, em escala geopolítica, move o soft power da China ou o que a liga árabe usou para comprar ligas e validar sua Copa, seus costumes e naturalizar sua presença na conversa global. Futebol é só o selo de “estamos aqui” no jogo de influência.

PARTE TRÊS – SOFT POWER: INTIMAMENTE GLOBAL

O K-pop deu soft power para a Coreia do Sul?

Ou foi a Coreia mais relevante que impulsionou o K-pop?

Tostines vende mais porque é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais?

É assim mesmo: causa e efeito andando de mãos dadas e trocando de lugar o tempo todo, o zeitgeist em loop.

O uso estratégico do esporte para projetar força é universal. Quando o Zico foi para o Japão, no auge da economia japonesa, foi para atrair os olhos globais, assim como Pelé e Messi hoje vão para os EUA para vender a ideia de uma América futebolística e globalizada.

No Brasil, essa tática não é nova: a Copa de 1970, a equipe Copersucar na F1 e as Copas de 2014 e 2016 foram usadas por governos para mostrar ao mundo uma brasilidade forte e unida. Esse soft power também pode abrir janelas positivas, como quando a Copa de 2010 nos fez discutir a África do Sul e o continente africano não como um problema, mas como pessoas, cultura e país.

Existe método na loucura da geopolítica esportiva. E com resultado. Existe um caso na Inglaterra analisado pelo Observatório Racial do Futebol: crimes de ódio islamofóbico em Merseyside caíram 18,9% depois da temporada absurda que Mohammed Salah fez em 2018 pelo Liverpool.¹ Nem discurso político dá esse tipo de resultado tão rápido. Um jogador conseguiu. Só existindo. Isso é soft power nu e cru.

Afinal, o futebol respira o zeitgeist.

E molda ele. E desorganiza ele.

Condutor e conduzido.

É espelho, luz e borrão ao mesmo tempo.

E tem mais um motivo: recentemente, descobriram que ao comprar um clube, você ganha um público inteiro. Paixão. Um vetor político que nenhum congresso entrega. E porque quem torce defende mesmo quando sabe que não devia. Em um mundo onde comunicação e validação por um grupo são sentimentos tão valorizados que levam bilionários a comprarem redes sociais para falarem bem de si, o futebol é palco perfeito.

Um espaço seguro onde, com dinheiro, o bilionário carente ou o fundo legitima sua existência. A proteção veicular ao invés de seguro. “Aposte nessa bet que é confiável.” “Esse país é moderno.” Tudo isso constrói pontes.

Eu, dentro dessa engrenagem, não passo de um ponto irrelevante. Vi bets, fundos, bilionários, religiosaços, mafiosos, políticos, todos entrando sem pedir permissão, usando o clube, quase falindo ele. Ainda é o Cruzeiro mesmo?

Vi todas as peças serem arrancadas e repostas.

Até onde o Barco de Theseus aguenta?

Existe Palestra no Cruzeiro?

E sigo aqui: chateado, apaixonado, cansado, presente. Reclamando de ingressos a 300 reais.

Mas ainda assim, dói e cura. Afasta e aproxima. Alienação e ponte de volta pro mundo ao mesmo tempo.

No final, se esporte é poder e poder é política, o que sobra do íntimo quando tudo vira global? O paradoxo é que o pertencimento é libertador e nos dá força como grupo, mas nos lembra de que, individualmente, somos solitários. Somos só mais um brilho, mais um número no placar humano:

61.584 torcedores no Mineirão.

Só mais um ponto azul na multidão.

Mais um tijolo no muro.

Não precisamos de educação.

¹: https://observatorioracialfutebol.com.br/estudo-aponta-influencia-de-salah-em-queda-nos-casos-de-islamofobia-em-liverpool/

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