Hoje acordei com o mesmo nó no peito que senti ao dormir. É estranho tentar escrever sobre o Lô. Em geral, eu não costumo me abalar com mortes de pessoas famosas, mesmo aquelas que admiro.
Elas sempre pareceram distantes, etéreas, parte do mundo, mas longe da minha vida. Como estrelas que a gente vê, mas nunca toca.
Mesmo assim, sigo tentando entender o que fazer com essa sensação que ficou. É uma tristeza estranha, difícil de lidar.
Às vezes até discuto comigo mesmo: por que sentir tanto por alguém que eu mal conhecia?
Falei sobre essa sensação a Marina, tentando comparar internamente com uma perda de um tio querido, mas distante, dessas presenças constantes nas festas de família. Uma companhia familiar que, de repente, se foi.
Acho que é isso, o Lô era familiar, mesmo sem estar presente.
Ele faz parte das minhas primeiras memórias musicais. O som do Beto e dele rodando na vitrola, ou nos CDs do carro, nas viagens preguiçosas de volta pra Sete Lagoas. Era trilha sonora da infância, do caminho, da vida.
Anos depois, quando eu e Marina éramos apenas ficantes, lembro de mandar mensagem pra ela andando na praia de Guarapari, perguntando se conhecia “Trem Azul”. Eu ouvia num MP3 velho, meio gasto. E aí ela me contou, casualmente, que o pai dela trabalhava com ele. Minha reação foi uma mistura de surpresa e alegria, eu fui entusiástico, para dizer o mínimo. Passei os próximos 20, 30 encontros com meu sogro bombardeando ele de perguntas sobre pessoas, famosos, trabalho, o dia a dia, as viagens, e ele, numa paciência de Jó, sempre me explicando tudo, enquanto eu (e meu pai também, viu) curiosos com tudo, perguntávamos sobre tudo.
A vida tem essas linhas que nos ligam, como coincidências do fio vermelho que juntam as vidas de um jeito bonito. Eu e ela, conectados por músicas que existiam antes da gente. Linhas de trem com caminhos que teimam em acabar nas mesmas estações.
Tive a chance de conhecer o Lô algumas vezes. Ele um homem extravagante e simples ao mesmo tempo.
Ri, ouvi histórias e fiquei quieto, só observando. O que mais me marcou foi o carinho com que ele tratava meu sogro. Um cara do calibre do Lô Borges poderia ser distante, já que é um imortal da música, mas era generoso e doce. Lembro de um caso em que gostou de uma camisa que meu sogro estava usando, e minha sogra comprou várias iguais para ele.
Ele usou a camisa da Riachuelo em ensaios, fotos, entrevistas. Coisa simples, mas que mostra quem ele era. Todos nós ao vermos um ensaio novo dele, víamos a camisa e ríamos junto. Outro caso foi quando minha esposa formou na faculdade, e meu sogro, que não estaria em uma das celebrações, mandou um vídeo com o Lô agradecendo “emprestar seu pai, e parabéns pra nova advogada, viu.”.
Eu mesmo tenho meus casos, como a tatuagem que fiz, nascida de um impulso cheio de significado. Queria falar sobre a morte do meu avô, que tinha acontecido a pouco tempo, e queria falar da Roda da Fortuna, desses encontros e despedidas, sobre ciclos que a gente insiste em entender, sobre esse trem azul que carrega o que esquecemos de dizer. E acabou que tudo falava sobre… ciclos, mensagens e o que carregamos em vida, morte, e as inevitáveis próximas estações.
Enfim, dessa vez, doeu esquisito, diferente. É uma perda pro Brasil, claro. Mas é também pra mim, pra Marina, pra nossa família.
Sendo honesto, acho que o que mais me pega é a mortalidade de quem estava bem. Estávamos falando com meu sogro sobre suas próximas viagens, shows, carnaval, próximos anos e tudo isso desaparece junto com ele. Um companheiro de estrada dele que partiu cedo demais, mas uma parte da profissão dele que morre repentinamente.
Eu sempre falo com a Marina sobre as “caixinhas de dor” que a gente guarda dentro da gente. E essa caixa foi escancarada. Pela óbvia e onipresente lembrança da morte.
Lendo Beira-Mar, do Pedro Nava, tem uma passagem que me volta agora: adolescentes rindo nas aulas de anatomia, fingindo leveza diante daquilo que todos sabem que o corpo que estudam é um reflexo do que serão um dia. A morte olhando de volta.
A do Lô bateu nesse lugar. Que a mortalidade está sempre e estará presente.
A passagem dele é estranha, mas bonita, de uma forma macabra, ao mesmo tempo. Pois Morre o chefe do meu sogro, o conhecido que mandava vídeos pra Marina, o som da vitrola do meu pai. Mas o Lô Borges, o imortal do Clube da Esquina, o cara que dirigia o audaz Manoel pelos morros de BH, esse continua vivo, pra sempre.
Só ver como foi a imensa comoção em torno. Da despedida dele no Palácio das Artes, à cantoria na esquina da Divinópolis com Paraisópolis, as amargas lágrimas no rostinho da Marina.
Ainda assim, a sombra sussurra no meu ouvido: ele não era tão mais velho assim daqueles que eu amo. E em tempos em que tanta gente querida foi embora, essa fala tem um peso difícil pra mim.
Entre o choque e a saudade, eu volto às músicas. O medo e a tristeza se perdem entre os arranjos de alguém que, sem saber teoria nenhuma, escrevia obras para serem estudadas, até hoje.
E ria disso.
Ficam os fãs, os amigos, os que cantam junto, os que descobriram agora. Sempre há espaço pra mais um como na casa de mineiro, como na casa dos Borges.
Esse vento de maio chegou cedo demais, Lô.
Esse adeus sideral que todo mundo notou. Esse fim de viagem que chegou de repente. Enquanto você desce nessa estação que é a vida desse meu lugar, eu sigo no trem azul, com o sol na cabeça.
Vá em paz, cavaleiro marginal.

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